terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Flores nas puras mãos: A Palhacinha: O sangue do Tempo


O sangue do Tempo

Nós, os deuses que morrem.

Nosso sangue é silêncio e música.
Nosso sangue é feito de silêncio profundo e música infinita.

O Sonho, Morfeu,
assume a forma da Amada.

Orfeu olha para trás, o Passado,
ao sair do Hades;
a Amada, neste instante do Presente,
se desfaz no ar,
e no Futuro, deixa de existir.

Seria possível, aos olhos de um coração, não resistir?

É meia-noite,
e os perfeitos sinos batem.
Nós encerramos,
nossa música prossegue.

Não é impossível, não resistir ao amor,
não resistir à vida,
Memória em Flor...                                      

                                                 Márcio Ide                                                                                                               Campinas, 30 de setembro de 2011.

Flores nas puras mãos: A Palhacinha: Lux


Lux

Mistério em mistério,
sonho em sonho
e olhos em olhos.

O labirinto dos olhares.

O degrau de volta não existe mais,
o da frente ainda não existe,
precisa ser criado.

No meio do caminho havia só o labirinto,
não havia como não encontrar o labirinto,
e no labirinto havia a vida.
Não havia como não encontrar a vida,
encontrando a vida
não tínhamos escolha a não ser desabrochar.

Não podíamos, é irresistível, força da vida,
temos de ser a Flor.

Fascinados pela Guerra das Cores,
as mãos tãos nuas,
nos olhos as estrelas prosseguem,
as constelações assistem o desabrochar da Vida.

Márcio Ide
   Campinas, 27 de Dezembro de 2011.

Flores nas puras mãos: A Palhacinha: As Faces


As Faces

Aquele rosto inocente, lindo e puro me enganou terrivelmente (o Rosto de Amor). Nas sagradas apostas de vida, apostei minha vida. E afinal, que culpa tem ela? (Sem saber a enganei terrivelmente também.) Se o que me enganou foi a beleza inocente, fascinate, e pura... da vida (a Face fresca da Vida). E eu me apostei todo, paguei todo, doí, morri, sarei, cresci. E em serenidade, preciso agora me entregar de novo.
Olha, então, cuidado ao entrar nos sonhos do outro, escolha seus sonhos, são algumas poucas danças puras, para viver os instantes mais perfeitos do... Desfile das Faces.

Márcio Ide
   Campinas, 27 de Outubro de 2011.

Flores nas puras mãos: A Palhacinha: Interlocução


            Interlocução
                                                             a uma criança-rainha inocente de primavera

As guitarras gritam brilhos,
as flores se confundem nelas mesmas,
rostos procuram rostos.

É tão fácil se perder num rosto meigo.

Ela nos abandonou.
Continuará ela, num lugar fora da vista, abandonada?

Destinos disfarçados de rostos.
Estamos cansados de nossos velhos truques de fazer os outros felizes.
Mas não cansamos de viver, afinal.

Não cessa o frescor no meu vento,
da nossa arquitetura de incerteza
fazemos de nossa teia de sonhos,
tato, arsenal de instrumentos
e odisseia deste instante.

A dança das cadeiras,
a dança dos intercessores,
por entre crianças perdidas,
tantos fantasmas,
anjos ou brilhantes,
solitários ou porque sonham,
e ninguém mais sabe.
Somos a música no ar,
pura música.

                                                             Márcio Ide
                                          Campinas, 18 de setembro de 2011.

Flores nas puras mãos: A Palhacinha: Janelas de pétalas


Janelas de pétalas

Ando com instantes (esplendorosos) só pra mim.
Sou pobre, não tenho dinheiro para viagens.
Então, vou as janelas fora de mim.

Os olhares encontrados,
ponho a rosa no vaso solitário.
Sento à janela, com minha presença querida.
Minha querida mesa, minha cadeira,
pulsações frescas de olhares amados,
e o espetáculo da Existência,
mais nada.
Vejo pela janela,
para atravessar os infinitos nos olhos,
e pelos olhos desamparados e absolutos
ver a veloz, atroz, audaz cachoeira da realidade
se abrindo no tempo:
Amor se devora a si,
o Fogo é o Tempo,
e o Tempo é voragem.
A Flor Efêmera, entretanto, viaja, interminável.

Que sejam tão somente janelas para a amplidão.

Márcio Ide
   Campinas, 27 de Dezembro de 2011.

Flores nas puras mãos: A Palhacinha: Paixão abstrata


            Paixão abstrata de uma rosa das rosas
                   
            Calor efêmero amor: toda a beleza da vida nos atravessa, mas não permanece, fica  toda a saudade da beleza da vida, das carícias de pétalas, do carinho teu dentro de mim quando amanheço, acordar nos braços de um abraço de pura canção. Nada como dormir com inocência no colo. Renascer junto com outra alma. As estrelas, as Estrelas. O enigma é perfeito, a contradição e a fértil confusão são a necessidade. O enigma não se esgota, é insolúvel, e por isso assim infindável.

                                                                       Márcio Ide
                                                     Campinas, 9 de outubro de 2011.

Flores nas puras mãos: A Palhacinha: Ela


Ela,
ou exercício de flauta.
a Lucíola Feijó  

E aqueles instantes eram mundos,
plenos de ventos e de destinos intermináveis.

Como ela era bela.

Certamente a vida sobrepôs novas feições sobre seu rosto.
Linhas que revelam tão logo fogem indecifráveis.

Vida viva numa face em fluxo.

Quando meus olhos se encontravam com esta pura face
alguma mágica inacreditável acontecia.

Beleza, frescor, leveza precisa.
Falas comigo, quem és? Que és??

Os mundos estão agora pinçados nas fotografias,
E as coleções de instantes agora são outras.

A Luz se fascina e o ar, o lar , no mar compõe.
Impossíveis sublimes tão possíveis...
Toque-a, mas não a retêm.
Contenha-a, mas no seu puro vir a ser.

Os trinados de flauta vão compondo os instantes.
As faces se misturam, se confundem, espraiam.
O segredo se adensa por entre desfiles e festas de olhares.
O diálogo se torna âmago que se torna...    ar.        
Não olhes para trás, à Morte, sorri à Vida que brota de dentro para o Tempo.
Diga ao gigantesco Mundo: flutuo.
Fale ao Segredo de Tempo: te fluo.
                                               
Márcio Ide                  
      Campinas, 22 de setembro de 2011.

Flores nas nuas mãos: A Palhacinha: Rosa na mão


A rosa na mão

Tão importante quanto pensar, é importante não pensar sobre muitas coisas, inclusive algumas coisas irresistíveis. A comunicação é importante, mas também é preciso não comunicar e viver em silêncios. Há por fim, o tempo de amar, e tão crucial quanto, o de não amar, ou seja, de amar a existência apenas solitariamente. A flor na mão. E o espaço vazio quando a flor não está na mão. Este espaço de tempo. É preciso se entregar a confiança muda e surda dos corações amados, nos limiares, e mais, se lançar sobre o abismo da vida, na queda ela te pega no ar, com seu desfile formidável de encantos. Não poderia ser de outra forma. Esta é... a vida.

        Márcio Ide

                                          Campinas, 2 de julho de 2011.

Flores nas nuas mãos: A Palhacinha: Rosas do Tempo


                Rosas do Tempo

A guerra dos mundos
acontece em nós.
É preciso guiar o fluir do universo
através de nós.
A vida nos deu à luz,
E nós damos a luz à vida.
Somos instantes vindo a ser, Vento...
somos as Rosas do Tempo.


     Márcio Ide

  Campinas, 28 de novembro de 2011.



Flores nas nuas mãos: A Palhacinha: Rosas nos olhos


Rosas nos olhos

Cai a rosa.

Cai a festa da vida na minha mão,
caem as rosas nos meus olhos.

Caem os sonhos,
caem os destinos.

Fica um pouco de música
mas mesmo a música cai.

Cai, termina,
e ainda assim, renasce.

Atravessam as rosas os meus olhos.
As estrelas singram a luz,
as cores singram os olhos
e os olhos singram as cores
e, por instantes,
feridas de alegrias,
fendidas de felicidades,
escrevemos o sangue no tempo,
queda, voo, flutuar:
somos a vida que sempre renasce.


              Márcio Ide  
                
      Campinas, 24 de agosto de 2011.